quarta-feira, 18 de abril de 2018

A HISTÓRIA DE PRESIDENTE DUTRA (Parte 9) - Sem Água Encanada e Luz Elétrica

Lamparina à querosene, ferro de engomar à brasa e copos de cerâmica



José Pedro Araújo

A vida sem água encanada e luz elétrica As dificuldades enfrentadas pelos primeiros ocupantes da vila do Curador não diziam respeito apenas ao problema do isolamento, da insalubridade, ou mesmo da ameaça constante de animais selvagens ou peçonhentos. A falta de um manancial de água corrente permanente era um dos maiores obstáculos enfrentado pela população, vez que os dois pequenos rios que cortam a região são temporários. Se para abastecer os animais não havia problema, para fazer frente à necessidade diária humana isto era um agravante que atormentava a todos.
            Além do trabalho que dava captar água de pequenas nascentes, ou de poços perfurados nos quintais das casas, infligia à população graves problemas de saúde causados especialmente pela larga taxa de verminose que atacava a todos, a meninada em especial. Além disto, havia ainda problemas com a higiene, causados especialmente pela falta de produtos para a limpeza das casas e a desinfecção dos aparelhos sanitários. Por conta disso, se fazia necessário o uso de latrinas rudimentares no fundo do quintal, e muitos se utilizavam da Creolina como desinfetante. Utilizar esses sanitários rudimentares que ainda por cima se situavam no quintal, em razão do cheiro forte que exalavam, constituía-se em terrível desconforto, e um problema grave de higiene, como já dissemos.
Como seria possível, em razão do tamanho da cidade, viver-se sem a água jorrando diretamente das torneiras para fazer face a gama de utilidades que ela possui?
O aparecimento de caixas d’água para armazenar o líquido precioso foi outra novidade que chegou para benefício dos mais abastados. Somente estes possuíam condições financeiras para instalar uma destas, já que, junto com ela, deveria se instalar também um grupo gerador de energia para elevar a água do poço até este depósito.
Portanto, tomar uma chuveirada não era coisa para qualquer um. Somente uns poucos privilegiados detinham este poder. Impossível pensar uma situação desta nos dias de hoje.
Ouçam o depoimento do descendente de canadenses, Dugal Smith, nascido em Barra do Corda, e emigrado para os Estados Unidos da América há muitos anos. Descrevendo, para os americanos, como se vivia na nossa região lá pelos anos vinte ou trinta, ele discorre assim:

“A vida em geral era rústica. Com a falta de encanação e purificação da água, esta era trazida diariamente do rio, por membros da família ou empregados, e postas em potes de barro para ser mantida fria. O pior era que muitas vezes se viam animais mortos – vacas, cavalos, cachorros – descendo água abaixo em galhos de árvores às margens do rio. Os mais privilegiados pagavam alguém para trazer água para casa. O transporte era na costa de jumento – quatro latas de querosene, duas de cada lado. Se a água não fosse consumida no mesmo dia, tinha que ser jogada fora, pois que em vinte e quatro horas se viam nadando no pote grande quantidade de larvas de insetos, cabeças de prego, etc.”(Fazendo Progresso, p. 40/41, 198).

Se a água para beber era apanhada em nascentes como a que ficava próxima a lagoa do Binga, ou do lado riacho Firmino, lavar roupas era um exercício de paciência. As mulheres desciam a rua com as trouxas de roupa na cabeça para lavá-las nas lagoas, muitas vezes distante de suas casas. Somente anos depois apareceu a figura da lavadeira profissional para lavar a roupa dos mais abastados. A lavagem, nesse caso, também era realizada nas lagoas ou nos riachos.
E quando a noite chegava com a sua escuridão cobrindo tudo, trazia consigo outro problema não menos grave: a falta de luz elétrica. Para combater a escuridão, utilizava-se de pequenas candeias, a lamparina, cuja fabricação era feita por pequenos artesãos funileiros. A partir de latas de óleo vazias, estes artífices elaboravam pequenos vasos para depositar o querosene, encimados por um bico vazado por onde passava o pavio feito de algodão, também chamado de murrão. 
O sucedâneo da lamparina foi o candeeiro. Com mangas de vidro, essa luminária evitava que o vento apagasse continuamente a chama. Apareceram como ótima novidade, para depois, em outra fase, serem substituídos pelo eficiente candeeiro a gás, com seu facho de luz abrangendo uma área bem maior.
Nas cidades maiores, desde a idade média, as ruas eram iluminadas por lâmpadas a óleo ou a gás, acesas todos os finais de tarde por funcionários com varetas especiais em cuja ponta ardia uma pequena chama. Mais tarde, esses mesmos cidadãos faziam o caminho inverso para apagá-las. Isso só ocorria nas cidades mais desenvolvidas. Em pequenos povoados como o Curador, antes da chegada da luz elétrica, as ruas permaneciam em completa escuridão, posto que não se contava com as tais lâmpadas à gás para clareá-las. As pessoas, ao saírem de casa, defendiam-se da escuridão carregando seus candeeiros, depois substituídos por outros à pilha, um avanço considerável.
Em nossas pesquisas encontramos a cópia de um Decreto assinado pelo governador de então, no qual destacava determinada soma de recursos do orçamento estadual para a implantação de um sistema público de iluminação das ruas do velho Curador através dos conhecidos Petromax, lampiões à gás. Não conseguimos saber se isso de fato aconteceu. Ou por não terem sido liberados os recursos lá descritos, ou mesmo por desvio de finalidade no seu emprego. O certo é que ninguém testemunhou para nós afirmando que isso tenha ocorrido.
As bicicletas também ganharam seus faróis, acesos à partir de um pequeno dínamo preso junto à roda traseira, iluminando a rua e permitindo o trânsito à noite. Foi um salto muito grande o aparecimento desse instrumento “moderno”, que permitia o tráfego desses veículos nas noites escuras do sertão. Muito caros, a principio, somente alguns poucos privilegiados conseguiam comprá-lo, dado o baixo poder aquisitivo dos moradores.
Quem hoje aperta um pequeno interruptor para acender uma luz, ou transita à noite por ruas tão claras como se fosse dia, custa a acreditar que os desbravadores desta terra passavam por problemas de tal magnitude há pouco mais de trinta anos atrás. As facilidades que temos hoje são conquistas de um povo que soube esperar pelo futuro, sem esmorecer nunca frente aos desafios que enfrentavam. Se abrir uma geladeira para apanhar água gelada ou entrar em um box de banheiro para tomar um banho rápido se constitui em uma tarefa simples, num passado não tão distante assim, era uma coisa fora da realidade, quer se tivesse condições financeiras ou não. A vida ficou muito mais fácil para todos.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

As Minhas Copas do Mundo de Futebol (5)



José Pedro Araújo

Como passa rápido esse interstício entre uma copa do mundo e outra. São quatro anos relâmpagos, talvez porque entre o final de uma copa e o começo de outra temos as olimpíadas, e depois a Copa das Confederações. Não sei. O que sei é que quando menos nos espantamos, já estamos brigando nas eliminatórias para tentar uma vaga para o próximo mundial. Pela primeira vez o país ganhador do último campeonato teve que disputar as eliminatórias, pois apenas o país anfitrião estava classificado antecipadamente. E lá fomos nós em busca da nossa vaga para confirmar o fato de sermos o único país do mundo a disputar todas as copas realizadas até então.

O Brasil ainda chegou a se oferecer para disputar a copa de 2006, mas tinha concorrentes fortes para esse jogo fora dos gramados que, como ficou provado mais tarde, é bastante sujo, onde a compra de voto corre solta. Assim, estrategicamente, o Brasil retirou o nome da disputa para sediar o certame e apoiou a África do Sul, pensando em obter os votos dos membros do continente africano para a disputa seguinte. Mas deu Alemanha.

Então, fomos disputar as eliminatórias. Não fomos mal, e ficamos em primeiro lugar do grupo da América do sul. Estávamos pronto para defender o nosso título de último campeão do mundo no velho país europeu, um dos grandes do futebol mundial. Levamos uma seleção que impunha respeito pois contava com Kaká, Adriano, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo Fenômeno. Tínhamos chances reais de brigar pelo hexa campeonato.

O sorteio nos colocou, na primeira fase, em um grupo tranquilo, juntos com Croácia, Japão e Austrália. Vencemos as três partidas e fomos para as oitavas-de-final contra a seleção de Gana, a quem impusemos uma vitória sem contestação por 3x0. Nessas alturas já estávamos empolgadíssimo com a seleção brasileira e a cada jogo o número de torcedores aumentava na nossa casa. Meus filhos já estavam numa fase em que os amigos são muitos, e eles mesmos se encarregavam em organizar o evento. Mas a nossa animação vinha de antes. Depois das eliminatórias, confiantes na força do grupo que iria para a Alemanha, compramos uma tevê nova. A escolhida desta vez  foi uma Sony LED Bravia de 40 polegadas. Como evoluímos desde a copa de 66 quando ouvíamos as partidas através de um rádio SEMP de pilhas, por não termos energia por essa época na cidade!

Ia esquecendo-me de dizer que alguns meses antes do início das competições montávamos o Álbum de Figurinhas da Copa. Comecei a organizar o primeiro para o meu filho recém-nascido ainda na copa do mundo de 1982. E desde então damos sequencia a esta tradição que tem o dom de nos aproximar da competição antes mesmo que ela comece. O Álbum da 2006 já era montado pelos meus filhos, que faziam de tudo para concluí-lo antes dos primeiros jogos. E valia tudo mesmo, desde a simples aquisição dos saquinhos com os cinco cromos nas bancas de revistas, a troca com os colegas, e até mesmo a aposta no jogo de bafo. Tudo era motivo para arranjar uma figurinha que nos estivesse faltando no nosso álbum.

Voltando à copa daquele ano, animação nas alturas, inflada jogo a jogo, passamos paras as quartas-de-final. Os adversários seriam os franceses de Zidane. Aquele mesmo país que nos havia desmoralizado em Saint-Denis, quando perdemos a final pelo placar acachapante de 3x0. Chegara o dia da vingança.

Mas, o Brasil encontrou Zidane em uma fase esplendorosa, e apesar de não termos jogado mal, perdemos o jogo pelo placar de 1x0. Foi uma ducha de água fria. Para as semifinais a torcida na minha casa estava reduzida somente aos membros da família. E na final, bateu aquela tristeza de ver a Itália com uma seleção voluntariosa apenas, mas fraca individualmente, bater os franceses nas penalidades, depois de ter desqualificado os donos da casa na semifinal. A Itália sagrou-se campeã do mundo com méritos, mas com um futebol feio e retrancado.

Fazer o quê? Guardamos o nosso álbum de figurinhas, juntamos as nossas tralhas de decoração, e fomos curtir a nossa decepção com uma enorme dor de cotovelos. Agora era esperar a copa seguinte que seria disputada, agora sim, na África do Sul. Pela primeira vez o torneio seria disputado em um país africano. Dois anos depois tinha início às competições para definir quem ia para a África em 2010. Esperávamos seguir com a escrita de nunca faltar a esse compromisso tão importante para nós brasileiros.

Depois de nos classificarmos em primeiro na zona Sul Americana, e de vermos a Argentina amargar um quarto lugar, partimos confiantes para o país daquela copa. Mas, antes disso, ganhamos outra vez a Copa das Confederações, pela terceira vez, torneio preparatório que antecede à principal competição de futebol mundial.  Kaká e Luís Fabiano, ganhadores dos principais prêmios na Copa das Confederações, eram as nossas principais esperanças de título. Kaká, aliás, havia sido escolhido o melhor jogador do mundo três anos antes, e depositávamos as nossas maiores esperanças no craque do Real Madrid.

Na minha casa partimos para organizar os nossos jogos mais uma vez. Com alguma parcimônia na compra de bandeiras e camisas. Talvez não estivéssemos tão confiantes em razão dos últimos reveses. O certo é que foi só a bola rolar, e já estávamos no clima da copa. Ganhamos os nossos dois primeiros jogos e empatamos o terceiro com Portugal, classificando-nos em primeiro do grupo. Não foi nada muito animador, não jogamos aquele futebol de encher os brasileiros de urgulho. Precisávamos engrenar melhor, mas sempre havia a promessa de crescimento durante a competição para chegar tinindo no final do torneio. Nesse mesmo tempo, as duas últimas campeãs do mundo, França e Itália, não conseguiram passar da primeira fase e voltaram cabisbaixas para casa.
O nosso Álbum de Figurinhas da Copa já estava completo também.

Tentamos animar a torcida na nossa casa, e até reforçamos os comes-e-bebes para dar uma cara melhor de Copa do Mundo. Nas oitavas-de-final batemos o Chile com folga, 3x0. Estávamos melhorando, mas pegaríamos um osso duro nas quartas-de-final, a Holanda. Agora a Copa estava no nosso sangue, a animação era total. O jogo haveria de ser realizado no estádio Nelson Mandela Bay, e nós estávamos prontos para encarar uma seleção que era sempre difícil de ser batida, mas sobre a qual obtivemos vitórias nos últimos confrontos.

Fizemos um jogo horroroso, Felipe Melo aprontou das suas, e perdemos com um gol de cabeça do jogador mais baixo da seleção adversária, Sneijder. Do mesmo modo que a temperatura havido subido com as vitórias da seleção brasileira, caiu vertiginosamente como um balão vazio. Voltamos para casa mais uma vez ao parar nas quartas. Na final a Espanha se sagrou campeã, como todos já sabem, batendo a Holanda que amargou mais um vice-campeonato. Assistimos a final com aquele sentimento de que vença o melhor. Nada mais importava para nós. De bom nessa copa só a presença de Nelson Mandela, um ícone para todos os adeptos da liberdade, um homem acima de todas as suspeitas, diferente de uns e outros que tentaram nos enganar por aqui ao posar de bom moço. Mas, deixa isso pra lá, que em 2014 a Copa seria em nossa casa e precisaríamos nos preparar, pois a nossa seleção estava envelhecida e seria preciso trocar algumas peças.


quarta-feira, 11 de abril de 2018

A HISTÓRIA DE PRESIDENTE DUTRA (Parte 8) - A Dieta Alimentar





José Pedro Araújo


A dieta alimentar no Curador - O cardápio diário era composto, invariavelmente, pelo arroz, o feijão e por um pouco de carne de porco, ou de galinha de capoeira ou caipira. A caça também era deveras abundante, encontrava-se com facilidade animais como o tatu, o jabuti, o veado mateiro, a paca, o porco-do-mato, a capivara, entre tantos outros que faziam parte do cardápio da região.
Entre as aves, além da galinha já citada acima, criava-se o peru e a guiné, ou galinha-d’angola, comuns na maioria dos quintais da vila. Ainda havia as aves silvestres, como a nhambu, a galinha d’água, a jaó, a marreca, a codorniz, o jacu, entre tantos outros pássaros que, bem temperados, substituíam com folga as aves domesticadas.
No principio não existia açougue na vila. Mesmo quando os moradores puderam contar com a primeira “casa-da-carne”, somente aqueles que possuíam melhor poder aquisitivo compravam diariamente a carne fresca para o repasto daquele dia. Não era possível conservá-la para o dia seguinte, a não ser que a colocassem para secar ao sol após salgá-la.
Aos pratos mais tradicionais, era comum se adicionar a farinha branca(seca), além de algumas olerícolas encontradas facilmente no lugar, como o quiabo, o maxixe, a abóbora e a vinagreira. Trata-se esta última de uma folhagem com gosto bastante peculiar – azeda mesmo - que pode se transformar num prato extremamente agradável quando misturada com ovos e um pouco de sal. Esta, após levada ao fogo para cozê-la, recebe o nome de cuchá.
A vinagreira pode ainda ser preparada juntamente com o arroz, formando o chamado arroz-de-cuchá, prato muito apreciado, de modo especial na capital maranhense onde ganhou fama e admiração.
A carne que sobrava era preparada e posta em varais ao sol para secar, uma vez que não se possuía ainda os refrigeradores de hoje, fazendo com que se conservasse boa para o consumo por muitos dias. Surgiu daí, o nome carne-de-sol, usada como componente de alguns pratos típicos muito saborosos, como a Maria-Isabel, a paçoca de carne seca pisada ao pilão, e também o jabá, que adicionado ao feijão, torna-se bastante saboroso.
Criativos, logo o excesso da carne de porco começou a ser aproveitado na confecção de linguiças e outros embutidos, e o seu toucinho era transformado em banha de cozinha, usado por todos desde muito antes do aparecimento do óleo de babaçu ou de soja. Tempos depois, ao passarem a ser envasados em latas, já podiam ser adquiridos nas mercearias.
Dos rios, riachos e lagoas saíam também peixes para todos os gostos, desde o mandi dourado, ou o mandi mole, passando pelo curimatã, a traíra, o piau, ou o grande surubim. Até mesmo peixes pequenos como as piabas ou lambaris, eram aproveitados no dia-a-dia. No princípio esses peixes eram encontrados em abundância, constituindo-se em mais do que uma opção de alimentação, era também uma forma de se adicionar proteínas ao cardápio diário. Depois, com a prática da pesca predatória, essa importante fonte de alimento quase sumiu da mesa do presidutrense.
            Produtos à base de trigo, como biscoitos e pães, não faziam parte das refeições dos habitantes dos sertões no início da formação da vila do Curador. Em seu lugar, utilizavam-se a farinha de mandioca e a tapioca, ou goma de mandioca, além do fubá de milho pisado em pilões de madeira. A farinha branca, torrada em aviamentos encontrados em todos os pequenos aglomerados urbanos, era básica no dia-a-dia das famílias, como ainda hoje acontece. Pode ser usada junto com o arroz e o feijão no almoço ou no jantar, ou no desjejum, depois de adicionada ao leite fervido, quando se transformava em uma pasta denominada “escaldado”.
Outro tipo de farinha de mandioca muito usada na região era a farinha-de-puba, ou farinha d’água, feita a partir da massa de mandioca amolecida em poças de água ou pequenas lagoas. Confeccionada a partir da mandioca apodrecida, teve sua origem entre os índios que habitavam o território, como alguns dos pratos já descritos. Exclusiva da região, essa farinha possui uma coloração amarelada e um sabor bastante apreciado pelos maranhenses. Em alguns lugares esse tipo de farinha ganhou fama e preço, como no município de Santa Rita, mais precisamente no povoado Carema, onde desde os primórdios da nossa colonização já era por demais conhecida. Aqui na região também pode ser encontrada adicionada ao coco babaçu, ou ao gengibre, ficando com um sabor muito apetecível.   
O cuscuz de milho e o beiju de tapioca também substituíam, com vantagens, a falta de pães e biscoitos, sendo ainda muito apreciados nos dias de hoje. Somente o “escaldado” de farinha com leite parece ter desaparecido das refeições matutinas.
Algum tempo passado, já era comum a comercialização de bolos nas feiras, ou mesmo nas ruas, quando alguns meninos saíam por toda a cidade vendendo bolos fritos, além do tradicional e exclusivo bolo chapéu-de-couro, feito a partir da massa de arroz frita em óleo fervido. Esse bolinho também tem um sabor muito especial, e só é encontrado nesta região. Muito mais tarde, os vendedores de pães também transitavam pelo povoado com seus imensos cestos repletos do produto ainda quente. Uma festa para a meninada que o comia no lanche da tarde. Poderia ser do tipo doce - massa fina - ou adicionado o sal - massa grossa, o importante é que estivesse ainda quentinho.
O café em grãos era adquirido a granel nas quitandas, depois de torrado, às vezes com rapadura, era pisado ao pilão, vez que não existia ainda as tais torrefações que só chegaram por aqui muito mais tarde. Ainda assim, muitas famílias demoraram muito para mudar de hábito. Alegavam que o café torrado por eles mesmo possuía muito mais sabor. No que estavam cobertas de razão.
A galinha ao molho, a carne de porco assada ao forno à lenha, o frango caipira recheado, a carne de carneiro ao molho ou assada na brasa, além do peixe de água doce preparado ao leite-de-coco, são pratos da culinária maranhense que adicionados ao arroz-com-feijão, o conhecido baião-de-dois, além do arroz-de-cuchá, ou mesmo o arroz-com-fava, ainda fazem a festa aos domingos quando a família maranhense se reúne para comemorar alguma novidade alvissareira.
Encerrando a descrição da nossa culinária regional, volto à farinha de mandioca que nunca está ausente das mesas maranhenses. Para os oriundos de outros estados nordestinos, a preferência é dada à farinha branca ou seca, bem fina e torrada. Enquanto que para os autóctones, sangue indígena circulando nas veias, juntamente com o do negro e o do europeu, a farinha-de-puba, ou d’água, tem a preferência de dez entre dez pessoas. Sua coloração amarelada, grandes torrões e gosto característico, possui inigualável prestígio junto aos habitantes da região do Japão.
Diferentemente da farinha branca cuja massa é preparada a partir do desmanche da raiz de mandioca em um cilindro rotativo de madeira com algumas lâminas incrustadas, chamado caititu, a massa com a qual é feita a farinha de puba, é preparada com a mandioca amolecida, para depois ser levada a torrar nos fornos à lenha. Pode ainda ser utilizada para a feitura de fritos com carne seca, paçoca de carne seca pisada ao pilão, e também com a amêndoa do coco babaçu. Pode ainda ser adicionada ao leite quente, quando dá um saboroso escaldado, ou simplesmente adicionada ao prato de comida. Vai bem em todos eles.
          Todo pequeno proprietário de terra possuía seu próprio aviamento para fazer farinha de mandioca. A engenhoca era montada junto à casa de morada. Em um pequeno galpão era fixada a roda, o caititu, a prensa, os cochos, e o forno à lenha para torrar o produto final. Nessa ocasião também se produziam dois bons subprodutos: a goma, também chamada na região de tapioca, e o beiju. Este último fazia a festa da meninada que o aguardava ansiosamente.
Finalmente, torna-se importante esclarecer para aquelas pessoas que nunca tiveram contato com a fabricação artesanal da farinha, que as farinhadas se transformavam em excelente ocasião para os vizinhos se juntarem em mutirão. E, além de executarem as tarefas de raspagem, desmanche, prensagem e torração, entabulavam conversas que duravam a noite inteira, quando então as novidades eram postas em dia.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

A HISTÓRIA DE PRESIDENTE DUTRA (Parte 7)





José Pedro Araújo

O uso do fogão à lenha Nos primórdios da vila de Curador, usavam-se as famosas “trempes”, formadas por três pedras de tamanho razoável, e sobre elas se colocavam as panelas de ferro para fazer o cozimento dos alimentos. Desse “mobiliário” muito simples, foi-se evoluindo para o fogareiro construído em cupins, ou em latas de biscoito e até de querosene, até se chegar ao fogão à lenha, construído de taipa, com furos no centro por onde as panelas de ferro recebiam o fogo da lenha que queimava abaixo. Esses rudimentares fogões, com o tempo foram sendo substituídos por outros construídos de tijolo, com chapa de ferro, erigido no canto da cozinha das casas mais “abastadas’. Alguns mais criativos, logo começaram a erguer chaminés por onde a fumaça era expelida. Nem todo mundo adotava esse instrumento para se ver livre da fumaça que negrejava as paredes da cozinha com uma fuligem escura e espessa. A maioria não erguia chaminés, continuava cozinhando seus alimentos em meio à fumaça e ao calor, como se o fumo que brotava da lenha em chamas não incomodasse em nada.
            A lenha seca era apanhada no mato, tarefa quase sempre entregue aos meninos maiores da casa. Outras vezes, eram os próprios adultos quem rachavam as toras de madeira com machados bem amolados. Esse procedimento se acentuava quando se aproximava o período das chuvas. Tornava-se necessário ajuntar o maior número de achas de lenha e guardá-las abrigadas das águas que caíam torrencialmente na região. Os imprevidentes, por sua vez, padeciam quando as chuvas caíam - às vezes por dias a fio -, de maneira que estes não conseguiam achar lenha seca, ocasião em que, envergonhados, tinham que pedir emprestada alguma aos vizinhos.
Alguns mais engenhosos construíam uma espécie de câmara ardente sob o fogão, que servia de depósito. Ali colocava a lenha um pouco úmida para secar através do calor emanado do fogo que ardia acima. Esses mais previdentes possuíam lenha seca durante todo o tempo de invernada, abstendo-se da necessidade de ter que armazenar grandes quantidades de madeira no período chuvoso.
A venda de lenha, madeira seca cortada em pequenas toras ou lascas, durante muitos anos se constituiu em profissão para muitos pais de família. Era comum a visão de cidadãos pelas ruas empoeiradas da cidade tangendo seus animais à procura de compradores. As cargas eram transportadas em cambitos, colocados aos pares em um e outro lado do animal, presos à cangalha. Esses pobres animais levavam cargas enormes, arrumadas de maneira a cobrir a parte de cima, formando um semicírculo de madeira, que a seguir era amarrada com cordas para não se esparramar pela rua.
Com o tempo, essa profissão foi completamente eliminada à medida que a lenha foi sendo paulatinamente substituída pelo carvão vegetal, e depois pelo gás butano.       
Era muito comum também, erguerem-se fornos de barro no quintal, onde eram assados bolos, pães e, até mesmo, leitões inteiros para gáudio da meninada que também apreciava as broas de milho e os bolos de tapioca que as mães preparavam para o lanche da tarde, ou para o café da manhã. Ainda é possível encontrar esses fornos nas fazendas e sítios, e em menor medida na cidade, usados ainda como forma de se manter viva a tradição.
            Não são poucas as pessoas que ainda apreciam uma boa comida caseira feita em fogões à lenha. Seguindo esse costume, as melhores pizzarias assam suas massas em grandes fornos à lenha, resgatando essa prática antiga, para felicidade de quem aprecia uma comida feita através desses instrumentos antigos.
O fogão a gás, utilizado hoje, só chegou até nós em meados da década de 60, facilitando sobremaneira a vida das donas de casa. Bendito o sujeito que inventou o gás butano para amainar um pouco a tarefa cansativa das mães de família!






segunda-feira, 2 de abril de 2018

AS DELICIOSAS "HISTÓRIAS DE ÉVORA"



José Pedro Araújo

Elmar Carvalho era mais conhecido como um poeta e cronista de sensibilidade apurada e grande verve criativa. Com o lançamento do seu primeiro romance “Histórias de Évora”, obra recebida pela crítica com efusivos e rasgados elogios, mostrou que a sua pena era muito mais eclética e inventiva do que muitos imaginavam ao enveredar pela prosa ficcional com competência e muita desenvoltura. Entretanto, mesmo sendo o seu primeiro trabalho nessa seara, não me surpreendi com a belíssima história que ele construiu (ou com as histórias que ele construiu, uma vez que “História de Évora” é uma teia de várias narrativas entrelaçadas em uma só). Surpreso mesmo (além de extremamente honrado) fiquei foi com o convite do autor para que eu fizesse a orelha do seu livro, que como todos sabem, é a parte primeira, de qualquer obra, que se lê. E que termina por se transformar em um chamariz, uma isca, no bom sentido.
Foi por esta razão que considerei como um tremendo desafio apor os rabiscos da minha pena pouco experiente em uma obra que será para sempre louvada por todos os que tiverem a sorte de tê-la em mãos. Mas, de qualquer maneira, enfrentei o desafio e pus-me em ação para fazer o melhor que eu pudesse. E saiu o que se viu.
A obra em questão, além de todos os atributos que uma plêiade de críticos literários já descreveram, é de leitura agradável e viciante, pois obriga o leitor a dedicar algumas horas a mais do que pretendia gastar com o seu ócio planejado.
Mas vou deixar para o próprio autor a tarefa de explicar, em algumas poucas palavras, o que ele produziu, a obra que saiu da sua imaginação engenhosa e inovadora:
   
“Histórias de Évora é um romance de formação, e conta histórias da vida de Marcos Azevedo, o protagonista, desde a sua adolescência, ocorrida na primeira metade dos anos 1970, e de sua juventude até o início de sua maturidade, com a narrativa em terceira pessoa”.
“Mas também conta episódios de outras personagens, através de um narrador em primeira pessoa, no caso Marcos, poeta e escritor”.
“Não se trata da Évora portuguesa, mas de uma cidade fictícia, misto de Parnaíba e Campo Maior dos anos 60, 70 e 80 do século passado”.
“Como pano de fundo, é contado um pouco da História do Piauí, sobretudo a decadência do extrativismo econômico e a derrocada dos velhos cabarés”.

Observação importante:
Histórias de Évora se encontra à venda nos seguintes pontos comerciais, em Teresina: livrarias Entrelivros, Universitária, Anchieta e Leitura.